domingo, 2 de janeiro de 2011

Posse de Dilma afasta desencanto pós-mensalão, mas fica longe da comoção de 2002

de Dilma Rousseff



Quando Dilma Rousseff subiu a rampa do Palácio do Planalto há oito anos ao lado do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, 150 mil pessoas se espremeram na Esplanada dos Ministérios para ver o primeiro operário chegar ao mais alto cargo do país. Quatro anos depois, ela refez o trajeto diante de 12 mil lulistas como ministra poderosa de um governo abalado pelo escândalo do mensalão. Neste sábado (1), foi a estrela de ambiente morno, sem a empolgação de 2002 nem o desânimo de 2006.

Assim como aconteceu com Lula em suas duas cerimônias de posse, delegações de vários Estados viajaram a Brasília para participar. Dias antes dos eventos, já havia quem montasse barracas na Praça dos Três Poderes para conseguir um ângulo privilegiado. Mas a expectativa pela chegada do petista à Presidência, incentivada por convites do PT distribuídos na capital federal, não se comparou à da consagração da primeira mulher presidente do Brasil – atrativo para cerca de 30 mil pessoas.

Assista à íntegra do primeiro discurso

Gente que, além disso, dividiu-se entre a vontade de ver a nova ocupante do Palácio do Planalto e a de acompanhar a despedida de seu antecessor, cuja popularidade atingiu níveis recordes em todo o mundo. Ainda assim, a posse de Dilma viu mais entusiasmo do que a macambúzia cerimônia reeleitoral de 2006, quando, mesmo vitorioso nas urnas, Lula sofria com o desencanto de grande parte da militância de esquerda com seu projeto de poder. Não houve shows para atrair público na ocasião.

Para os eventos de sábado (1), o Ministério da Cultura financiou vários palcos com atrações musicais. Mas o único que teve público considerável ao longo do dia foi o da Praça dos Três Poderes, com artistas famosas como Fernanda Takai e Zélia Duncan. Atrações temáticas – divididas em regiões brasileiras – ficaram às moscas. A chuva também ajudou a aplacar o ânimo dos simpatizantes de Dilma e de Lula, mas esteve presente da mesma maneira em 2002 e em 2006.

Limites da emoção

Depois de receber a faixa presidencial, Dilma desfilou em carro aberto ao lado da filha, Paula – a presidente é divorciada. Fez gestos modestos, indicando seu estilo mais comedido na comparação com o seu popularesco mentor. Em 2002, em êxtase, Lula ziguezagueou no Rolls Royce presidencial no meio da multidão, ao lado da mulher, Marisa Letícia. Há quatro anos, no entanto, teve de se contentar com um trajeto tradicional e desanimado na vazia Esplanada dos Ministérios.

de Dilma Rousseff como presidente


Na comparação com as duas cerimônias anteriores, o evento de sábado teve na simbólica subida da rampa a sua mais notável diferença. Desta vez, um mandatário recebia uma sucessora indicada por ele. Há oito anos, Fernando Henrique Cardoso transmitia o cargo a um adversário político, apesar da amizade que ambos conservavam desde décadas até aquele momento. Em 2006, Lula reeleito já chegou ao Palácio do Planalto vestindo a faixa presidencial para discursar e empossar ministros.

As saídas dos ex-presidentes também foram distintas. Se em 2002 Fernando Henrique preferiu a saída dos fundos do Palácio do Planalto para não ofuscar o sucessor, Lula desceu a rampa do escritório do governo de braços dados com a sucessora, para depois mergulhar na multidão, onde beijou e foi beijado, chorou e foi chorado. Mais tarde, fez discurso em São Bernardo do Campo – quebrando uma tradição de ex-presidentes darem aos sucessores o monopólio da palavra no dia da posse.

Se desta vez não houve centenas de ônibus de todo o Brasil, não faltou presença de eleitores convictos de Dilma. Se neste sábado não havia dezenas de pessoas dormindo nos arcos do STF (Supremo Tribunal Federal), tampouco se viu atitude indiferente do público e das autoridades. Se não foi vista a empolgação popular de 2002, ficou longe da indiferença de 2006. Se a posse de Dilma aplacou o desânimo de muitos com a política após o mensalão, manteve a sensação de que a sombra Lula permanecerá.

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